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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Gratidão x Ingratidão

GRATIDÃO X INGRATIDÃO

Pensando sobre o que escrever neste novo post, me deparei hoje com vários atendimentos no consultório que o assunto presente foi a ingratidão das pessoas. Ao ouvir os relatos percebi que a ingratidão é uma forma de funcionamento mental que gera uma atitude concreta onde o ingrato deixa de reconhecer o que a outra pessoa fez ou faz por ela. Somente isso? Não com certeza não, esse sentimento vem acompanhado de outros como a voracidade (eu quero tudo para mim), a inveja (eu desejo o que o outro tem, ao invés de conquistar por mim mesmo prefiro me apropriar e ao mesmo tempo destruí-lo), soberba (altivez, orgulho excessivo) e onipotência (o que pode tudo).

Tenho ouvido relatos de pacientes, de amigos, de conhecidos sobre esse tema e percebo que ele mobiliza na pessoa que passa por isso outros sentimentos como decepção, traição, muitas pessoas deprimem outros se sentem enganados. Há ainda pessoas que ao viver esta situação além da tristeza diminuem sua auto estima por ter permitido que isso acontecesse em sua vida.

Mas por que será que uma pessoa a qual confiamos, estimamos e permitimos que ela se aproxime da nossa intimidade torna-se ingrato?

Acredito que é aqui que acontece o erro, o ingrato sempre esteve lá, foi você que não percebeu, muitas vezes por carência, outras porque acreditou que aquela pessoa seria diferente com você e que realmente era seu amigo.

O ingrato tem em si o sentimento do orgulho, da inveja, do egoísmo, da falta de reconhecimento, não se coloca no lugar da outra pessoa, sua principal característica está em olhar somente para si, mesmo visando seus próprios interesses. Descartam com grande facilidade os que estavam ao seu lado, muitas vezes indo embora sem se despedir já que não existe mais interesse em ficar.

Sabe de uma coisa? Foi ótimo ele ter saído da sua vida, uma hora isso iria acontecer, apesar da dor que você sentiu ficou livre de quem nunca foi verdadeiro, e pior só estava com você por interesse. Responda você precisa passar por isto?

Já há pessoas que são extremamente gratas, reconhecem que para ser feliz consigo mesmo, em suas relações ou profissão em algum momento necessitou do apóio de alguém. Valorizam e sentem gratidão pelo que o outro fez a ele. Ao reconhecer que recebeu algo bom do outro aprende que também tem a capacidade de realizar outras experiências significativas como, por exemplo, auxiliar outras pessoas.

Estudiosos do comportamento acreditam que esta característica se inicia na primeira infância através do modelo familiar e do ambiente em que a criança esta inserida. Há autores psicanalíticos que defendem a idéia que ser grato esta relacionado ao amadurecimento emocional e para isto é necessário trabalhar elaborando sentimentos como rivalidade, inveja , onipotência etc..

É você reconhecer que para ser feliz precisa do outro e que este outro não é melhor nem pior, ele é só diferente de você, mas tem a capacidade de se colocar no seu lugar e ajudá-lo.

Entre a gratidão que é a capacidade de reconhecer que o outro lhe deu algo como afeto, conhecimento, amizade e etc. e que ao receber sua vida ficou melhor e a ingratidão que é a falta desse reconhecimento. Depende de você e a maneira de como você escolheu de estar no mundo, o jeito que cada um de nós, se posiciona na vida, uns apostam no bem, em estar junto, outros apostam no egoísmo o que em algum momento o deixará só.

Portanto faça sua escolha.

Teresa Zogaib

quinta-feira, 5 de março de 2015

No teu poema

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
O teu poema
Existe a dói calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E aberta uma varanda para o mundo
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora dagonia e o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco a raiva e a lula
De quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte
No teu poema
Existe o grilo e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha
No leu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
O canto em vozes juntas, vezes certas
Canção de uma só letra e um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco a raiva e a luta
De quem cai ou que resiste
Que vence ou adormece
Antes da morte
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do mundo
Existe tudo mais que ainda me escapa
É um verso em branco à espera
Do futuro

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Felicidade não se compra

Quero ser feliz modernamente, mas carrego comigo uma depressãozinha básica Nos meus vinte anos, meu ídolo era o James Bond, bonito, corajoso, entendendo de vinhos e de aviões supersônicos, comendo todo mundo, de smoking. Mundano? Sim, mas Bond tinha a missão de salvar o mundo. Hoje, não. A mídia nos ensina que os heróis da felicidade não têm ideal algum a conquistar, a não ser eles mesmos. A felicidade é uma autoconstrução de sucesso, de bom funcionamento. Mas, mesmo não sendo o 007, eu queria ser feliz como ele. Lembro, fascinado, a primeira vez em que ele surge como personagem num cassino onde lhe perguntam o nome — ele acende um cigarro e diz: “Bond... James Bond”. Eu queria ser ele. Mas, como? A felicidade oficial da mídia comanda meus ideais. Nas revistas, vejo os ídolos contemporâneos malhados, ricos, rindo entre modelos e apresentadoras. O ideal de felicidade é uma solidão narcísica cercada de admiradores, o brilho solitário que suga o prazer, sem conflitos, sem afetos profundos, mas sempre com um sorriso simpático e congelado, porque hoje é mais “comercial” ser alegre do que tristemente carregar a dor do mundo. (Este artigo está com a cara dos apócrifos que colocam na internet com meu nome mas, tudo bem — serei apócrifo de mim mesmo.) Continuemos. Antes, havia uma certa tristeza na felicidade. Vejam os rostos melancólicos, paralisados de desespero das mulheres casadas, nas fotos de época. Olhando os retratos antigos, vemos que a felicidade masculina estava ligada à ideia de “dignidade”, vemos os barbudos do século XIX de nariz empinado, os perfis de medalha, donos de um poder total no lar, sobre a mulher e os filhos, aterrorizados diante do pai implacável. Eu, não; quero ser feliz modernamente, mas carrego comigo uma depressãozinha básica, medos, traumas. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Não consigo me enquadrar nos rituais de prazer. Posso ter uma crise de melancolia em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada infinita, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era quase um pecado. Para mim, felicidade sempre foi uma missão a ser cumprida, a conquista de algo maior que me coroasse de louros, a felicidade demandava “sacrifício”, a luta contra obstáculos. Como quebrei a cara nessa busca de plenitude... Descobri com a idade que não há este lugar “além do arco-íris”. Mas o narcisista de hoje passa a ideia de que já chegou lá, de que não precisa de ninguém. Ele não quer aporrinhações. A felicidade moderna é o consumo do outro, e o mundo é um grande pudim a ser comido. Meu homem feliz pode ter todas as mulheres, mas é casado consigo mesmo. Não pensem que estou criticando isso; estou é com inveja dessa leveza de ser, dessa ligeireza nas relações. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um liquidificador rebolante, um avião, o homem quer ser um grande pênis voador, um “passaralho” superpotente, mas frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústia. O macho brasileiro tem pavor de ser possuído. Seu prazer é cumulativo, feito de apropriações indébitas, sem jamais incluir o prazer de ser “possuído” pelo outro. Quer se apaixonar, mas tem pânico disso. O amor é desejado, mas aprisiona. Por isso, pela aridez do tempo, o amor ficou “transgênico,” geneticamente modificado e, como os hambúrgueres, virou “fast love”. Por isso, nosso macho não se entrega; basta-lhe o encaixe. O encontro humano virou um modelo de armar. O macho A se encaixa em fêmea B, e produzem uma engrenagem C, repleta de luxo e arrepios entre lanchas e caipirinhas, num esfuziante casamento que dura três números de “Caras”. E, ainda por cima, as pessoas atribuem uma estranha “profundidade” a essa superficialidade, porque esse diletantismo tem o charme de ser uma sabedoria elegante e “pós-tudo”. O homem feliz da mídia é informado e cínico, conhece bem as tragédias do tempo, mas se lixa para elas, por uma falsa “maturidade”, um alegre desencanto. Ele vive em velocidade; o mundo veloz da internet, do celular, do mercado financeiro imprimiu-lhe um ritmo incessante, dando-lhe um glamour de onipresença, um funcionamento sem corrosão, uma eterna juventude que afasta a ideia de morte ou velhice. O homem “feliz” é antes de tudo um forte, mas um negador. Para ser feliz, é necessário negar, denegar, renegar problemas, esquecer. São três as receitas da felicidade: não pensar em doença, nem em angústia, nem em miséria. Mas chega um dia em que o herói deprime, um dia em que a barriga cresce, o amargor torce-lhe os lábios, o pau cai e o homem feliz descobre que precisa de um ideal de encontro, algo semelhante à velha felicidade, pois ele sabe confusamente que a verdadeira solidão é apavorante. Então, ele passa a evitar que qualquer “profundidade” existencial possa pintar, que a ideia de finitude apareça à sua frente, senão sua “liberdade” ficaria insuportável. Aí, ele percebe que precisa do amor, como uma esperança de “sentido”. E ele espera, então, uma sensação de eternidade, uma juventude para sempre, espera que o mistério da “falha” humana se revele — queremos esquecer, queremos “não saber” que vamos morrer, como só os animais não sabem. Não consegue amar, mas precisa amar, como única solução. O problema é que amar exige coragem, e hoje somos todos covardes. Daí, ele passa a viver um paradoxo: ligar-se sem ligar-se. Nosso homem livre inventa uma ideia de felicidade e de amor inatingíveis, para satisfazer-se numa eterna insatisfação. Como um James Bond fracassado que jamais perde a pose. Nem para si mesmo. E se gasta feliz nesta missão impossível. 
Arnaldo Jabor 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

NÁUSEA (AJ) (Rep)

Náusea



O grande Cole Porter tem uma letra de música que diz: "Conflicting questions rise around my brain/ Should I order cyanide or order champagne?" ("Questões conflitantes rondam minha cabeça/ devo pedir cianureto ou champanha?")
Sinto-me assim, como articulista. Para que escrever? Nada adianta, nada. E como meu trabalho é ver o mal do mundo, um dia a depressão bate. A náusea - não a do Sartre, mas a minha. Não aguento mais ver a cara do Lula, o homem que não sabe de nada, talvez nem conheça a Rosemary, não aguento mais ver o Sarney mandando no País, transformando-nos num grande "Maranhão", com o PT no bolso do jaquetão de teflon, enquanto comunistas e fascistas discutem para ver quem é mais de "esquerda" ou de "direita", com o Estado loteado por pelegos sem emprego, não suporto a dúvida impotente dos tucanos sem projeto; não dá mais para ouvir quantos campos de futebol foram destruídos por mês nas queimadas da Amazônia, enquanto ecochatos correm nus na Europa, fazendo ridículos protestos contra o efeito estufa; não aguento mais contar quantos foram assassinados por dia, com secretários de segurança falando em "forças-tarefas" diante de presídios que nem conseguem bloquear celulares, não suporto a polêmica nacionalismo-pelego x liberalismo tucano, tenho enjoo de vagabundos inúteis falando em "utopias", bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos decepcionados com os 'cumpanheiros' sindicalistas, mas secretamente fiéis à velha esquerda, que só pensa em acabar com a mídia livre, tremo ao ver a República tratada no passado, nostalgias masoquistas de tortura, indenizações para moleques, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma reforma no Estado paralítico e patrimonialista, não tolero mais a falta de imaginação ideológica dos homens de bem, comparada com a imaginação dos canalhas, o que nos leva à retórica de impossibilidades como nosso destino fatal e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada, apesar dos bilhões em propaganda para acharmos que algo acontece. Odeio a dúvida de Dilma, querendo fazer uma política modernizante, mas batendo cabeça para o PT, esse partido peronista de direita.
Não aturo a dúvida ridícula que assola a reflexão política: paralisia x voluntarismo, processo x solução, continuidade x ruptura; deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, balas perdidas sempre acertando em crianças, imagens do Rio São Francisco com obras paradas e secas sem fim, o trem-bala de bilhões atropelando escolas e hospitais falidos, filas de doentes no SUS, caixas de banco abertas à dinamite, declarações de pobres conformados com sua desgraça na TV; tenho engulhos ao ver a mísera liberdade como produto de mercado, êxtases volúveis de 'descolados' dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas, odeio recordes sexuais, próteses de silicone, pênis voadores, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja com louras burras, abomino mulheres divididas entre a 'piranhagem' e a 'peruice', repugnam-me os sorrisos luminosos de celebridades bregas, passos de ganso de manequim, notícias sobre quem come quem, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, rebolando em shoppings assaltados, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e Ocidente, desovando cadáveres na Palestina e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e Heliópolis, a cara dos boçais do Hamas querendo jogar Israel no mar e o repulsivo Bibi invadindo a Cisjordânia, o assassino pescoçudo Assad eliminando o próprio povo, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã recitam o Alcorão com os rabos para cima, xiitas sangrando, sunitas chorando, tudo no tão mal começado século 21, século 8.º para eles ainda, não aguento ver que a pior violência é nosso convívio cético com a violência, o mal banalizado e o bem como um charme burguês, não quero mais ouvir falar de "globalização", enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo nos sinais de trânsito, cariocas de porre falam de política e paulistas de porre falam de mercado, museus pós-modernos em forma de retorcidos bombardeios em vez da leveza perdida de Niemeyer, espaços culturais sem arte nenhuma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô de picaretas vestidos de "contemporâneos", não aguento chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro arrancado dos ignorantes sem pagar Imposto de Renda, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas de prata, políticos se defendendo de roubalheira falando em "honra ilibada", conselhos de ética formado por ladrões, suplentes cabeludos e suplentes carecas ocultando os crimes, anúncios de celulares que fazem de tudo, até "boquete"; dá-me repulsa ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis, odeio o prazer suicida com que falamos sem agir sobre o derretimento das calotas polares, polêmicas sobre casamento gay, racismo pedindo leis contra o racismo, odeio a pedofilia perdoada na Igreja, vomito ao ver aquele rato do Irã falando que não houve Holocausto, cercados pelas caras barbudas da boçal sabedoria de aiatolás, repugnam-me as bochechas da Cristina Kirchner destruindo a Argentina, a barriga fascista do Chávez, Maluf negando nossa existência, eternamente impune, confrange-me o papa rezando contra a violência com seus olhinhos violentos, não suporto Cúpulas do G20 lamentando a miséria para nada, tenho medo de tudo, inclusive da minha renitente depressão, estou de saco cheio de mim mesmo, desta minha esperançazinha démodé e iluminista de articulista do "bem", impotente diante do cinismo vencedor de criminosos políticos.
Daí, faço minha a dúvida de Cole Porter: devo pedir ao garçom uma pílula de cianureto ou uma "flute" de champagne rosé?
 

domingo, 9 de novembro de 2014

MONÓLOGO MUNDO MODERNO


Monólogo Mundo Moderno
E vamos falar do mundo, mundo moderno
marco malévolo
mesclando mentiras
modificando maneiras
mascarando maracutaias
majestoso manicômio
meu monólogo mostra
mentiras, mazelas, misérias, massacres
miscigenação
morticínio, maior maldade mundial
madrugada, matuto magro, macrocéfalo
mastiga média morna
monta matumbo malhado
munindo machado, martelo
mochila murcha
margeia mata maior
manhazinha move moinho
moendo macaxeira
mandioca
meio-dia mata marreco
manjar melhorzinho
meia-noite mima mulherzinha mimosa
maria morena
momento maravilha
motivação mútoa
mas monocórdia mesmice
muitos migram
mastilentos
maltrapilhos
morarão modestamente
malocas metropolitanas
mocambos miseráveis
menos moral
menos mantimentos
mais menosprezo
metade morre
mundo maligno
misturando mendigos maltratados
menores metralhados
militares mandões
meretrizes marafonas
mocinhas, meras meninas,
mariposas
mortificando-se moralmente
modestas moças maculadas
mercenárias mulheres marcadas
mundo medíocre
milionários montam mansões magníficas
melhor mármore
mobília mirabolante
máxima megalomania
mordomo, mercedez, motorista, mãos
magnatas manobrando milhões
mas maioria morre minguando!
moradia meiágua, menos, marquise
mundo maluco
máquina mortífera
mundo moderno melhore
melhore mais
melhore muito
melhore mesmo
merecemos
maldito mundo moderno
mundinho merda!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Náusea (Arnaldo Jabor)



O grande Cole Porter tem uma letra de música que diz: "Conflicting questions rise around my brain/ Should I order cyanide or order champagne?" ("Questões conflitantes rondam minha cabeça/ devo pedir cianureto ou champanha?")
Sinto-me assim, como articulista. Para que escrever? Nada adianta, nada. E como meu trabalho é ver o mal do mundo, um dia a depressão bate. A náusea - não a do Sartre, mas a minha. Não aguento mais ver a cara do Lula, o homem que não sabe de nada, talvez nem conheça a Rosemary, não aguento mais ver o Sarney mandando no País, transformando-nos num grande "Maranhão", com o PT no bolso do jaquetão de teflon, enquanto comunistas e fascistas discutem para ver quem é mais de "esquerda" ou de "direita", com o Estado loteado por pelegos sem emprego, não suporto a dúvida impotente dos tucanos sem projeto; não dá mais para ouvir quantos campos de futebol foram destruídos por mês nas queimadas da Amazônia, enquanto ecochatos correm nus na Europa, fazendo ridículos protestos contra o efeito estufa; não aguento mais contar quantos foram assassinados por dia, com secretários de segurança falando em "forças-tarefas" diante de presídios que nem conseguem bloquear celulares, não suporto a polêmica nacionalismo-pelego x liberalismo tucano, tenho enjoo de vagabundos inúteis falando em "utopias", bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos decepcionados com os 'cumpanheiros' sindicalistas, mas secretamente fiéis à velha esquerda, que só pensa em acabar com a mídia livre, tremo ao ver a República tratada no passado, nostalgias masoquistas de tortura, indenizações para moleques, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma reforma no Estado paralítico e patrimonialista, não tolero mais a falta de imaginação ideológica dos homens de bem, comparada com a imaginação dos canalhas, o que nos leva à retórica de impossibilidades como nosso destino fatal e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada, apesar dos bilhões em propaganda para acharmos que algo acontece. Odeio a dúvida de Dilma, querendo fazer uma política modernizante, mas batendo cabeça para o PT, esse partido peronista de direita.
Não aturo a dúvida ridícula que assola a reflexão política: paralisia x voluntarismo, processo x solução, continuidade x ruptura; deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, balas perdidas sempre acertando em crianças, imagens do Rio São Francisco com obras paradas e secas sem fim, o trem-bala de bilhões atropelando escolas e hospitais falidos, filas de doentes no SUS, caixas de banco abertas à dinamite, declarações de pobres conformados com sua desgraça na TV; tenho engulhos ao ver a mísera liberdade como produto de mercado, êxtases volúveis de 'descolados' dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas, odeio recordes sexuais, próteses de silicone, pênis voadores, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja com louras burras, abomino mulheres divididas entre a 'piranhagem' e a 'peruice', repugnam-me os sorrisos luminosos de celebridades bregas, passos de ganso de manequim, notícias sobre quem come quem, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, rebolando em shoppings assaltados, enquanto os homens-bomba explodem no Oriente e Ocidente, desovando cadáveres na Palestina e em Ramos, ônibus em fogo no Jacarezinho e Heliópolis, a cara dos boçais do Hamas querendo jogar Israel no mar e o repulsivo Bibi invadindo a Cisjordânia, o assassino pescoçudo Assad eliminando o próprio povo, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã recitam o Alcorão com os rabos para cima, xiitas sangrando, sunitas chorando, tudo no tão mal começado século 21, século 8.º para eles ainda, não aguento ver que a pior violência é nosso convívio cético com a violência, o mal banalizado e o bem como um charme burguês, não quero mais ouvir falar de "globalização", enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo nos sinais de trânsito, cariocas de porre falam de política e paulistas de porre falam de mercado, museus pós-modernos em forma de retorcidos bombardeios em vez da leveza perdida de Niemeyer, espaços culturais sem arte nenhuma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô de picaretas vestidos de "contemporâneos", não aguento chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro arrancado dos ignorantes sem pagar Imposto de Renda, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas de prata, políticos se defendendo de roubalheira falando em "honra ilibada", conselhos de ética formado por ladrões, suplentes cabeludos e suplentes carecas ocultando os crimes, anúncios de celulares que fazem de tudo, até "boquete"; dá-me repulsa ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis, odeio o prazer suicida com que falamos sem agir sobre o derretimento das calotas polares, polêmicas sobre casamento gay, racismo pedindo leis contra o racismo, odeio a pedofilia perdoada na Igreja, vomito ao ver aquele rato do Irã falando que não houve Holocausto, cercados pelas caras barbudas da boçal sabedoria de aiatolás, repugnam-me as bochechas da Cristina Kirchner destruindo a Argentina, a barriga fascista do Chávez, Maluf negando nossa existência, eternamente impune, confrange-me o papa rezando contra a violência com seus olhinhos violentos, não suporto Cúpulas do G20 lamentando a miséria para nada, tenho medo de tudo, inclusive da minha renitente depressão, estou de saco cheio de mim mesmo, desta minha esperançazinha démodé e iluminista de articulista do "bem", impotente diante do cinismo vencedor de criminosos políticos.
Daí, faço minha a dúvida de Cole Porter: devo pedir ao garçom uma pílula de cianureto ou uma "flute" de champagne rosé?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Filtro Solar

Filtro solar!
Nunca deixem de usar o filtro solar
Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro
seria esta: usem o filtro solar!
Os benefícios a longo prazo do uso de Filtro Solar
estão provados e comprovados pela ciência,
Já o resto de meus conselhos não tem outra base
confiável além de minha própria experiência errante.
Mas agora eu vou compartilhar esses conselhos com
vocês...

Aproveite bem, o máximo que puder, o poder e a beleza
da
juventude.
Ou, então, esquece... Você nunca vai entender mesmo o
poder e a beleza da juventude
até que tenham se apagado.
Mas pode crer que daqui a vinte anos você vai evocar
as suas fotos,
E perceber de um jeito que você nem desconfia hoje em
dia,
Quantas, tantas alternativas se escancaravam a sua
frente.
E como você realmente estava com tudo em cima,
Você não está gordo ou gorda...

Não se preocupe com o futuro.
Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que
pré-ocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para
tentar
resolver uma
equação de álgebra.
As encrencas de verdade em sua vida tendem a vir de
coisas que nunca passaram pela sua cabeça preocupada,
E te pegam no ponto fraco às 4 da tarde de uma
terça-feira modorrenta.

Todo dia, enfrente pelo menos uma coisa que te meta
medo de verdade.

Cante.

Não seja leviano com o coração dos outros.
Não ature gente de coração leviano.
Use fio dental.

Não perca tempo com inveja.
Às vezes se está por cima,
às vezes por baixo.
A peleja é longa e, no fim,
é só você contra você mesmo.

Não esqueça os elogios que receber.
Esqueça as ofensas.
Se conseguir isso, me ensine.
Guarde as antigas cartas de amor.
Jogue fora os extratos bancários velhos.

Estique-se.

Não se sinta culpado por não saber o que fazer da
vida
As pessoas mais interessantes que eu conheço não
sabiam, aos
vinte e dois
o que queriam fazer da vida.
Alguns dos quarentões mais interessantes que eu
conheço ainda
não sabem.

Tome bastante cálcio.
Seja cuidadoso com os joelhos.
Você vai sentir falta deles.

Talvez você case, talvez não.
Talvez tenha filhos, talvez não.
Talvez se divorcie aos quarenta, talvez dance ciranda
em suas
bodas de diamante.

Faça o que fizer não se auto congratule demais, nem
seja severo demais com você,
As suas escolhas tem sempre metade das chances de dar
certo,
É assim para todo mundo.
Desfrute de seu corpo use-o de toda maneira que puder,
mesmo!!
Não tenha medo de seu corpo ou do que as outras
pessoas possam achar dele,
É o mais incrível instrumento que você jamais vai
possuir.

Dance.
Mesmo que não tenha aonde além de seu próprio quarto.
Leia as instruções mesmo que não vá segui-las depois.
Não leia revistas de beleza, elas só vão fazer você se
achar feio


Dedique-se a conhecer seus pais. É impossível prever
quando eles
terão ido embora, de vez.
Seja legal com seus irmãos. Eles são a melhor ponte
com o seu
passado e
possivelmente quem vai sempre mesmo te apoiar no
futuro.

Entenda que amigos vão e vem, mas nunca abra mão de
uns
poucos e bons.
Esforce-se de verdade para diminuir as distâncias
geográficas e de estilos de vida, porque quanto mais
velho você ficar,
Mais você vai precisar das pessoas que você conheceu
quando jovem.

More uma vez em Nova York, mas vá embora antes de
endurecer.
More uma vez no Havaí, mas se mande antes de
amolecer.

Viaje.

Aceite certas verdades inescapáveis:
Os preços vão subir, os políticos vão saracotear, você
também vai envelhecer.
E quando isso acontecer você vai fantasiar que quando
era jovem os preços eram razoáveis, os políticos eram
decentes,
E as crianças respeitavam os mais velhos.
Respeite os mais velhos!!
E não espere que ninguém segure a sua barra.
Talvez você arrume uma boa aposentadoria privada.
Talvez você case com um bom partido, mas não esqueça
que um dos dois de repente pode acabar.
Não mexa demais nos cabelos se não quando você chegar
aos 40 vai aparentar 85.

Cuidado com os conselhos que comprar,
mas seja paciente com aqueles que os oferecem.
Conselho é uma forma de nostalgia.
Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado
do lixo,
esfregá-lo,
repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do
que vale.
Mas no filtro solar
Acredite.
VEJA O VÍDEO

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Bom dia, DEUS


Se eu estiver feliz comigo mesmo e despreocupado com os problemas dos outros, então não estou em paz. A paz que eu procuro, o mundo não me pode dar. Quando os homens falam de paz quase sempre entendem ausência de conflito e de guerra. Mas muito poucos na verdade entendem a paz como presença de amor, de ternura de real e verdadeira preocupação pelos outros, de certeza que tu estás conosco, "Shalom". E eu também sou assim Pai, falo de paz mas nem sempre a tenho. Eu também a confundo com ausência de conflito, ausência de tensões e de crises, sossego, conforto pessoal. Mas se a paz que eu pretendo viver no dia de hoje for real e verdadeira, então não vou dscansar. Porque, tendo encontrado minha resposta, sentirei o desejo de que outros também estejam em paz. É por me sentir feliz e bem que eu não tenho parado, tenho buscado a tua paz e a dos outros com sinceridade. mas tenho errado muito e muitas vezes, quando não comprendi que a paz que dou nem sempre é a paz que os outros procuram, que meu jeito de falar ou deixar as pessoas em paz nem sempre é um jeito divino. Ensina-me por isso mesmo Pai a ser antes de tudo, honesto comigo mesmo. Honesto nas atitudes e palavras, porque a paz nunca é feita de mentira. Dá-me pois, a paz que o mundo não sabe dar. Dirige meu olhar na direção dos pobres e sofredores. Dá-me o amor imenso por eles, e a vontade de lutar por eles, sem ódio algum no coração contra ninguém, nem mesmo contra seus opressores. Esta manhã, tira-me Senhor, o meu sossêgo, enche-me de justiça e dá-me a paz de Jesus Cristo. A paz inquieta de quem busca para os outros a alegria e a serenidade que diz ter encontrado. que eu não descanse nem sossegue. Bom dia Deus - Pe Zezinho

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Essas Coisas (Republicação)

«Você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas.»

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Saúde Mental

Recebi o texto, abaixo, com a anotação " genial" e, de fato o é, por isso vai postado, como alimento para a metamorfose, em forma de madrigal especial.

Considerando, como considero, que a vida terrena é o casulo em que se opera a metamorfose da alma, as observações postas por Rubem Alves, representam, ainda, condições de ligação direta entre o casulo, a alma e a metamorfose dos eternos aprendizes, que somos todos nós.

"Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, dentro do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakovski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, previsíveis, sempre iguais, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa...

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todos sabem, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente 'equipamento duro', e a outra se denomina software, 'equipamento macio'.

O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades 'espirituais' - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória.

Do mesmo jeito, como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo 'espirituais', e o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco faz-se necessário chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas. Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios (o hardware) tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade.Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é.

E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, só então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram".

Rubem Alves


Extraído do blog Madrigal da Metamorfose


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Essas Coisas

«Você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas.»

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

A Virtude do Sofrimento

A Virtude do Sofrimento O sofrimento! Que divino desconhecido! Devemos-lhe tudo o que é bom em nós, tudo o que dá valor à vida; devemos-lhe a compaixão, devemos-lhe a coragem, devemos-lhe todas as virtudes. A terra não passa de um grão de areia no deserto infinito dos mundos. Mas, se o sofrimento se limita à terra, ela é maior que todo o resto do universo.

Anatole France, in 'O Jardim de Epicuro'

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O peso que a gente leva..


Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado?
As perguntas são muitas... E se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira vez?
Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada.
É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence.
E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu, eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É conseqüência natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou.
É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro.Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de nossas lamúrias... Hospitais, asilos, internatos...Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar.Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve. (Fábio de Melo, 16/06/2009)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Solidão


"Solidão não é a falta de gente para conversar,
namorar, passear ou fazer sexo...
Isto é carência!

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência
de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade!

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe,
às vezes para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio!

Solidão não é o claustro involuntário que o destino
nos impõe compulsoriamente...
Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância!

Solidão é muito mais do que isto...

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos
e procuramos em vão pela nossa alma.", Chico Buarque

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Perdas necessárias (Pe. Léo)

Deixa partir
O que não te pertence mais
Deixa seguir o que não poderá voltar
Deixa morrer o que a vida já despediu
Abra a porta do quarto e a janela
Que o possível da vida te espera
Vem depressa que a vida precisa continuar
O que foi já não serve é passado
E o futuro ainda está do outro lado
E o presente é o presente que o tempo quer te entregar

Fala pra mim
Se achares que posso ouvir
Chora ao teu Deus se não podes compreender
Rasga este véu do calvário que te envolveu
Tão sublime segredo se esconde
Nesta dor que escurece o horizonte
Que por hora impedem os teus olhos de contemplarem 
O eterno presente do tempo 
O ausente o presente em segredo 
Na sagrada saudade que deixa continuar

Deixa morrer o que a morte já sepultou 
Deixa viver o que dela ressuscitou 
Não queiras ter o que ainda não pode ser 
É possível crescer nesta hora 
Mesmo quando o que amamos foi embora 
A saudade eterniza a presença de quem se foi 
Com o tempo esta dor se aquieta 
Se transforma em silencio que espera 
Pelos braços da vida um dia reencontrar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Valor da Amizade



A mesma palavra tem significados diferentes de acordo com o texto ou o discurso em que figura. A importância disso é capital, pois significa que, para interpretar uma palavra, precisamos nos debruçar sobre o contexto do qual ela faz parte ou escutar verdadeiramente quem a profere. Do contrário, não a entendemos. O ensinamento básico de Sigmund Freud é esse e bastaria para justificar a psicanálise, se isso ainda fosse necessário.

A maioria das pessoas, no entanto, não se dispõe a escutar. Poucos nascem com essa capacidade, que pode e precisa ser desenvolvida. Escutar é um ato generoso. Implica que eu deixe momentaneamente de falar e esteja aberto para o que o outro tem a dizer.

A escuta é a característica do psicanalista e também do verdadeiro amigo – que não impõe a sua presença, não diz o que não deve ser dito e, assim, faz com que a amizade floresça. Ou seja, o amigo sabe se conter, exercita-se na ética da contenção. Por isso, ele é de paz e a sua maneira de ser pode servir de modelo para todas as outras relações: marido e mulher, pais e filhos e irmãos.

O que o filósofo e historiador grego Xenofonte escreveu 2 400 anos atrás poderia ter sido escrito hoje: "Um bom amigo é o mais precioso de todos os bens. Está sempre pronto a auxiliar... Há homens, contudo, que investem toda a sua energia no cultivo de árvores, para colher frutos, e são negligentes com o amigo, o bem que mais frutifica". O amigo vê e ouve o que não somos capazes de ver nem ouvir. Assim sendo, pode fazer por nós o que não temos como fazer por nós mesmos. Como o analista, ele ilumina o caminho.

Ele sabe suspender o seu desejo para que o do outro se manifeste. O que ele mais quer é o acordo. Está menos interessado nos eventuais benefícios materiais que a amizade pode trazer do que no fortalecimento desta. Visa sobretudo ao contentamento do outro e não deve ser confundido com o cúmplice, que visa ao próprio interesse e se liga a alguém em função do que almeja alcançar.

O elo de cumplicidade tende a ser efêmero, enquanto o de amizade é para sempre. Em outras palavras, o amor dos amigos nunca é de agora, e sim para a vida inteira. Também por isso, há milênios a amizade inspira escritores, que se perguntam de que modo escolher um amigo, quais as características de um amigo verdadeiro e o que nós devemos a ele. Os escritores – os melhores, entre eles – sabem que a amizade nasce espontaneamente, mas só dará os seus melhores frutos se for cultivada.   Por Betty Milan Colunista da VEJA

sábado, 5 de setembro de 2009

Um coração Límpido e Puro


"A oração torna o coração puro. É este o começo da santidade. A santidade não é um luxo reservado a alguns: é um dom simples oferecido a vós e a mim.

Onde começa a santidade? Nos nossos corações. É por isso que temos necessidade da oração contínua para manter o coração puro e assim ele tornar-se-á sacrário do Deus vivo. (...)

Deixar o amor de Deus tomar posse do coração, de forma total e absoluta, torna-se para o coração como uma segunda natureza. Que o coração não deixe entrar nada nele que seja contrário ao amor de Deus; que se esforce continuamente por aumentar este amor de Deus ao procurar agradar-Lhe em tudo e não Lhe recusando o que Ele pede; que aceite, como vindo da mão de Deus, tudo o que lhe acontece; que tome a firme decisão de nunca cometer uma falta deliberada e conscientemente, mas se cair, que peça perdão e se levante imediatamente. Um coração assim reza continuamente.

O conhecimento de Deus produz o amor e o conhecimento de si próprio faz-se na humildade. A humildade é apenas a verdade. O que é que possuímos que não tenhamos já recebido? - pergunta São Paulo. Se recebi tudo, que bem é que tenho de mim mesmo? Se estamos convencidos disto, nunca ergueremos a cabeça com orgulho. Se fordes humildes, nada vos tocará, nem o louvor nem o opróbrio, porque vós sabeis o que sois. Se vos culpam, não desanimareis. Se vos proclamam santo, não vos colocareis a vós próprios num pedestal. O conhecimento de nós próprios faz-nos ajoelhar.

Mudai os vossos corações...
Não há conversão sem mudança de coração:
mudar de lugar não é solução;
mudar de actividade não é solução.
A solução é mudar os nossos corações.
E como os mudamos?
Rezando.

Madre Teresa de Calcutá, em "Oração: Frescura duma fonte"

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Quando acaba...

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim..
Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa:
- Ah,terminei o namoro...
- Nossa, estavam juntos há tanto tempo.....
- Que pena...acabou....
- é...não deu certo...
Claro que deu! Deu certo durante o tempo que se esteve juntos, só que acabou.
E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.
Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar 100% de você para você mesmo, como cobrar 100% do outro?
E não temos essa coisa completa.
Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.
Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.
Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.
E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante...e se o beijo bate...se joga...se não bate...mais um Martini, por favor...e vá dar uma volta.
Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não brigue, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar.... ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?
O legal é alguém que está com você, só por você.
E vice versa.
Não fique com alguém por pena.
Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói.
Muitas vezes você vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração.....
Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse....
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta.. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar...
Enfim....quem disse que ser adulto é fácil ?????


Arnaldo Jabor

domingo, 16 de agosto de 2009

A Paz que eu procuro


Bom dia Deus,

Se eu estiver feliz comigo mesmo e despreocupado com os problemas dos outros, então não estou em paz. A paz que eu procuro, o mundo não me pode dar. Quando os homens falam de paz quase sempre entendem ausência de conflito e de guerra. Mas muito poucos na verdade entendem a paz como presença de amor, de ternura de real e verdadeira preocupação pelos outros, de certeza que tu estás conosco, "Shalom". E eu também sou assim Pai, falo de paz mas nem sempre a tenho. Eu também a confundo com ausência de conflito, ausência de tensões e de crises, sossego, conforto pessoal. Mas se a paz que eu pretendo viver no dia de hoje for real e verdadeira, então não vou dscansar. Porque, tendo encontrado minha resposta, sentirei o desejo de que outros também estejam em paz. É por me sentir feliz e bem que eu não tenho parado, tenho buscado a tua paz e a dos outros com sinceridade. mas tenho errado muito e muitas vezes, quando não comprendi que a paz que dou nem sempre é a paz que os outros procuram, que meu jeito de falar ou deixar as pessoas em paz nem sempre é um jeito divino. Ensina-me por isso mesmo Pai a ser antes de tudo, honesto comigo mesmo. Honesto nas atitudes e palavras, porque a paz nunca é feita de mentira. Dá-me pois, a paz que o mundo não sabe dar. Dirige meu olhar na direção dos pobres e sofredores. Dá-me o amor imenso por eles, e a vontade de lutar por eles, sem ódio algum no coração contra ninguém, nem mesmo contra seus opressores. Esta manhã, tira-me Senhor, o meu sossêgo, enche-me de justiça e dá-me a paz de Jesus Cristo. A paz inquieta de quem busca para os outros a alegria e a serenidade que diz ter encontrado. que eu não descanse nem sossegue. Bom dia Deus - Pe Zezinho