Lançamento
Caetano Veloso um medalhão que não corteja o fácil
Abraçaço fecha uma trilogia que rompeu com o pop convencional
Caetano e banda
Foto: Divulgação
Abraçaço (Universal Music) disco que fecha a trilogia
iniciada em 2066, com Cê, e continuou em 20099, com Zii e zie, Abraçaço,
também não é um disco fácil. Aliás , “fácil”, Caetano nunca foi.
Leãozinho ou Menino do Rio são acidentes em sua obra. Seus maiores
sucessos aconteceram com composições alheias: Meia lua inteira
(Carlinhos Brown), ou Sozinho (Peninha). Abraçaço não é disco de quem
está pensando nas paradas. A melodia quase o tempo inteiro é enquadrada
em segundo plano. Difícil imaginar, por exemplo, uma Ivete Sangalo
cantando este repertório. É o que acontece, por exemplo, em Um
comunista: “Um mulato baiano/muito alto e mulato/filho de um italiano e
de uma preta uçá/foi aprendendo a ler/olhando o mundo à volta/e
prestando atenção no que não estava à vista/assim nasce um comunista”.
Canção-documentário sobre o guerrilheiro Carlos Marighella (assassinado
em 1969, numa rua de São Paulo).
Na letra, Caetano se posiciona em favor do idealista (“os comunistas
guardavam sonhos”), ao mesmo tempo em que confessa que não crê em
violência ou guerrilha. Canto quase falado, a banda Cê pontua com
incursões incidentais o roteiro, a melodia montada em poucos acordes,
enfatizando a letra. Curioso é que o baiano Carlos Marighella, que não
está na letra de Um comunista, tem seu nome bradado em Alfômega
(Gilberto Gil), faixa do Álbum Branco, de 1969. Isto numa época em que a
imprensa só poderia citá-lo autorizada pela censura.
“O bardo judeu romântico de Minnesota”, na letra de A bossa nova é
foda, obviamente, trata-se de Bob Dylan, com quem a música de Caetano
Veloso cada vez mais se parece, não em forma, mas em conteúdo. Assim
como Dylan, ele, aos 70 anos, cada vez mais procura desvendar os
mistério do homem e do ato de viver. E nem sempre repassa com
objetividade estas incursões ontológicas. Ele mesmo comentou que alguns
versos de novas canções são como charadas. “O magno instrumento grego
antigo”, expressão encontrada em A bossa nova é foda, significa a
“lira”, por sua vez, referência a Carlos Lyra, autor de Influência do
jazz, citada na letra.
Melhor faixa do disco, A bossa nova é foda é a reafirmação,
recorrente no discurso dos tropicalistas, da admiração a João Gilberto, e
à excelência da bossa nova, bem manufaturado de um país até então
exportador de produtos primários. A bossa nova é linkada aos lutadores
de MMA, como exemplos de invenções nacionais que ganharam mundo. Com uma
diferença básica: a bossa nova antecipou o amor, o sorriso e a flor da
utopia hippie. Os gladiadores Vitor Belfort ou Anderson Silva refletem a
antiutopia preconizada por Anthony Burgess em Laranja mecânica. A bossa
nova é foda cita ainda o Olavo Bilac (1865/1918), do poema Música
brasileira: “E em nostalgias e paixões consistes/lasciva dor, beijo de
três saudades/flor amorosa de três raças tristes”.
Caetano, nunca foi exatamente um autor fácil. muito menos nesta
trilogia. Assim como na música mais recente de Bob Dylan, as citações
permeiam os versos das canções,: “Mulher indigesta/você só merece o
céu/como está no samba de Noel”, canta em Funk melódico, referência à
uma nuance do funk carioca, diatribe com uma A bem-humorada citação ao
samba de Noel Rosa, Mulher indigesta, que rimava com um tijolo na testa:
“Não tenho um tijolo, nem paralelepípedo/só me resta o funk melódico”.
Quando cnata "prova que o ciume é só o estrume do amor, recorre ao
Vinicius Moraes de Medo de amar ("Nascer de mim, como do deserto uma
flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor")
Discursivo e confessional, Abraçaço não é, como se tem dito,
experimental. Caetano Veloso rompeu desde 2006, ano de Cê, com a canção
pop, para consumo e deleite dos que consomem seus discos. O que reforça
em Recanto, a série de canções feitas para Gal Costa. A trilogia é
interligada. Estou triste, de Abraçaço, entre o blues e o adágio, leva à
Minhas lágrimas, de Cê. Ambas pungentes e confessionais, de letra que
vai direto à ferida (Estou triste/tão triste/estou muito triste”). E
aqui se ressalte o trabalho de Pedro Sá, Marcelo Callado, e Ricardo Dias
Gomes. Eles cumprem com maestria o papel de acentuar momentos, iluminar
tons smbrios, soando acima da voz de Caetano somente quando a canção
assim o exige. Uma destas raras ocasiões, em O império da lei, que
começa em levada de carimbó, e tem um momento percussivo que lembra o
Nação Zumbi.
Ritmicamente Abraçaço é sempre surpreendente, com tempos esquisitos,
batidas descompassadas, como em Parabéns (com Mauro Lima), um e-mail
musicado, de letra repetitiva. Aqui e acolá um gênero identificável
facilmente. como o samba O abraçaço, rasgado no final pela guitarra mais
roqueira do álbum. No final do disco, uma quase convencional canção de
amor, não fosse demasiada lenta, e pelo título Gayana. Parceria com
Rogério Duarte, com quem assina Anunciação, em seu disco solo
tropicalista de 1968. O amor que vive em mim/vou agora revelar/este amor
que não tem fim/já não posso em mim guardar/eu amo você/eu amo muito
você”, lembra versos de Roberto Carlos.
Caetano Veloso tem muito a dizer, e diz.
FRASES - Um paralelo é que a criação do MMA foi
daqui. Essa mistura dessas lutas vem dos Gracie e os brasileiros eram
quase que a totalidade das grandes figuras do MMA. Mas a outra coisa é
que o João Gilberto gosta de luta. Sempre gostou e seguramente gosta de
MMA (sbre a citaçã ode nomes de lutadores de MMA em A bossa nova é foda)
“Eu
ainda penso no ouvinte hipotético, sinto a presença dos ouvintes
hipotéticos, os imagino, mas a canção vai se impondo” (sobre canções
consideradas difíceis)
A Bossa Nova É Foda, do disco novo, é
quase um jogo de palavras cruzadas, uma charada, mas o importante é o
essencial. E o essencial é que a bossa nova é foda. Ali há outras
referências. Ao ouvir “o bruxo de Juazeiro”, não é possível que uma
pessoa não saiba a quem estou me referindo. E mesmo que “o magno
instrumento grego antigo” seja uma maluquice, como se fosse outro
desafio de palavras cruzadas, em seguida você ouve que “diz que quando
chegares aqui que é um dom que muito homem não tem que é influência do
jazz”. Não é possível que não perceba que eu estou falando de Carlos
Lyra (sobre a complexidade de algumas letras)
Das coisas da minha
vida (olha para baixo). Fiz porque estava mesmo triste e até fazer a
canção me ajudou a superar aquele momento... (sobre a canção Estou
triste)
É mistura criada a partir do Brasil, entendeu? Então
nesse ponto tem um paralelo com a bossa nova. E tem um desejo em toda a
canção de fazer um retrato da bossa nova como gesto histórico e estético
agressivo. Não o clichê da coisa doce, e suave. Mas não é nenhuma
novidade, é apenas uma maneira de dizer. Essa canção é outra maneira de
dizer algo que vem sendo dito por mim, pelo Tom Zé, pelo Gil, por
diversas pessoas há muito tempo (mais uma vez sobre a ligação entre
bossa nova e MMA).
A canção “Um abraçaço” é bonita e melancólica.
É muito simples, ela quase não existe, mas tem emoção. E essa emoção é
cheia de melancolia, marcada pela melancolia (sobre Abraçaço)
Abraçaço
é uma palavra muito bonita e tem essa reverberação, parece um eco, mais
ainda quando escrito, esse a-ce-cedilha duas vezes. É como se fossem
círculos concêntricos de abraços, que vão se expandindo. Não é apenas
grande ou maravilhoso como é um golaço, por exemplo (idem).
Sou um medalhão rebelde (sobre ele mesmo)