sábado, 31 de julho de 2010

Um dia em nossas vidas. (Por Kkampus)


Eu sento na minha varanda, e pra ser poético, num dia frio, quando faz um calor miserave (é miserave mermo! Pra se saber o quanto tá quente) ; espero as horas passar fumando um cachimbo hipotético , bebendo um dezoito anos numa lata de água tonica (uma cerveja pegaria bem, mas estou de plantão) e quanto de poesia ou prosa vem nesse momento? Só a própria vida, com seus projetos, com seus anseios, com seus enganos, com a verdade, com suas imperfeições, com a saudade, com a presença infinitamente bela dos  filhos, com a adolescência perdida, com o cheiro ainda da inocência, com o romantismo dos meus vinte anos (duas vezes vinte anos), com um amor à minha  loucura , que insisto em manter para ninguém ousar-me curar (parece frase do Parafernálias), com um cadinho de inspiração, palhaço a brincar com as palavras.
Escrever é navegar, vocês já sabiam que eu usar o trocadilho de Fernando (também sou íntimo Hugo) “navegar é preciso”.E preciso muito, pois meus sonhos , dos quais a maldade do mundo não deixa ; precisa desta realização, dessa forma absurda, de construir os parágrafos. Mas a precisão de Pessoa , lê-se exato, enaltece a navegação, de tantos heróis bandidos, que vieram pilhar, que mataram os índios das Américas , em nome de Cristo. Sou Mapuche, sou Inca, sou Maia, sou Guajajara, sou Awe, sou Timbira. Mas também sou de Gaia, de Pangeia. Ouço uma canção de revolução, uní-vos numa canção paraguaia: irmãos quase dizimados. “Gracias a La vida“, Mercedes! Gracias por teus tambores e pífanos. Obrigado Alfredo de Viçosa! Vivas a Ariano Suassuna! Vivas a Sergio Buarque de Holanda e sua prole! “Minha alma de sonhar-te anda perdida”, Gullar. Mudou a faixa e agora toca Fagner, Elomar, Vital , Zé Ramalho e Geraldinho. Um abraço em João do Vale,de Pedreiras.
Encontro-me calmo, sereno,os gases lacrimogênios do Clube da Esquina.”Nesse clube a gente sozinho se vê,pela ultima vez, a espera do dia, naquela calçada , fugindo pra outro lugar”.Que bom que existe música, assim os sentimentos humanos se tornam mais solidários, menos complicado para um velho poeta, caçar as palavras.
Fumega o café no bule, coado numa cueca velha; a borra no fundo da caneca de esmalte, e aquele amassado  beiço , (um mendigo bebeu  na piada) . A insônia piora. Se estivesse em Cedral comeria a pamonha na folha de bananeira na casa de Princesa de Da Luz. Parece que vi uma estrela cadente, mas não deu tempo de confirmar; seria um drible do cansaço, um piscar de ilusão. Era uma estrela cadente, eu sei! Ou seria um avião, Biba?! Talvez!?
A lua já se caminha para se tornar um Cê, onde posso armar uma rede, e me embalar lendo um livro. Qual livro? Um que tenha letras, um bocado de frases, um tantão de estórias, verdadeiras ou não. Poderia ser do Saramago ou de Marcelo Gleiser, Mas se fosse de rimas, teria que ser do Neruda ou do poeta de urano,poeta da existência, Nauro Machado.
A barra do dia desponta, a menina do andar de cima chegou, apertou a minha campainha errada; nem tomou do café, pediu desculpas sorrindo, como que mendigando um beijo lascivo de bom dia. Só tomei suas mãos, lhe ofertei um ósculo nos dedos:Don Juan De Marco! “Volver a Los Deizessete”, de novo!
Tomo minha bicicleta, faço meus diários nas vielas da cidade; ainda boêmios na lagoa. Sigo até a Litorânea, enfio meus pés na água. O frescor da maré. Segue uma vela no horizonte, bem perto de Alcântara. Penso...pois pensar é estar vivo; a última coisa que quero é ser racional, descarto essa idéia: Durmo na areia.
“E os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis.” Acordo feliz!