domingo, 27 de abril de 2008

A casa que sonhei nunca ficou pronta

Na juventude, minha mãe era infeliz e não sabia, pois todas as suas forças eram convocadas para esquecer isso. Cantava Dalva, para desgosto de meu pai, e ria com medo se bem que ninguém era feliz naquela época. Não havia essa infelicidade esquizofrênica de hoje, mas era uma infelicidade tristinha, com lâmpada fraca, uma infelicidade de novela de rádio, de lágrimas furtivas, de incomprensões, de conceitos pobres para a liberdade. eu via as famílias; sempre havia uma ponta de silêncio, olhos sem luz, depois dos casamentos esperançosos com burguês arrojado para o futuro que ia morrendo aos poucos. Não era tristeza da pobreza, dava para viver com uma empregadinha mal paga, dava, mas era uma tristeza obrigatória, quase uma "virtude" que as famílias cultivavam, sem horizontes. Hoje vivemos essa liberdade desagregadora, com a esperança de paz da classe média destruída, vivemos o medo das ruas, das balas perdidas. Antes, minha mãe tinha a ilusão de uma "normalidade". Hoje, todos nos sentimos sem pai nem mãe, perdidos no espaço virtual, dos emails, dos contatos breves, da vida rasa sem calma. Na verdade, tenho vontade de telefonar, mas é para saber quem sou eu. E quando disserem "Quem fala", pensarei: "É o que me pergunto..." Mas sei que vou desligar dizendo: "Desculpe, é engano..."