sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Tudo tem sua hora, seu tempo?

Fui criança, tenho ainda muito dessa criança. Talvez seja curioso observar que ao contrário de muitas outras crianças, nunca tive o desejo de crescer, tornar-me gente grande, adulto. Naquela época, não saberia explicar tal desejo de não crescer. É como se houvesse a possibilidade de escolha, uma criança pensa assim. Hoje sei que era complicado, difícil. O complicado é que talvez a esquizofrenia já se mostrava muito presente em mim. Não queria crescer, ao mesmo tempo que não queria permanecer sempre criança. A minha infância era uma sucessão de repetições teatrais sem datas e horas pra acontecer. Nos finais de semana eram sempre mais quentes. Imagine, fui tantas vezes obrigado a assistir coisas que eu não desejava ver, tornei-me o terror de eu mesmo, uma tristeza disfarçada na cara de um palhacinho por opção. Forças essenciais foram se dissipando de mim e, nem me dei conta de que isso me tornaria no muito ou quase nada do que sou hoje. O diagnóstico é difícil quando nossa essência é atingida. A busca do eu fica terrível, inatingível. A essência do Ser é fascinante, dita uma vida de batalhas, combates e guerras até. Eu sou realmente fascinado por essas essências, que ao meu ver, são convites a reflexões bem profundas, silenciosas e sem pressas. Ah, já venci muitas batalhas, mas não estive, não estou, não estarei preparado pra nenhuma guerra. A minha essência afirma que eu não tenho necessidade de ser participante. Talvez eu tenha coragem de assumir a criança que sou, sem ninguém pra se preocupar comigo, sem ninguém pra me mimar, sem ninguém pra me bater.Tornei-me quase um louco fascinante com uma cara a denunciar-me por algo que não fiz. Fui eleito sem ser candidato, ou candidato sem ter escolhido sê-lo. Tudo isso são partes e/ou fragmentos de segredos meus, que tristemente não vislumbro a menor possibilidade de ter com quem conversar sobre os mesmos. Deus sabe e, na sua infinita sabedoria, permitiu. Fui "sentenciado" no meu mistério infantil como quem recebe de presente o que almejava tanto, sem saber porque. Pessoas próximas apontam: "Ele não cresceu. Imaturo". Não conhecem meus mistérios, mas eu não repudio à isso, já é demais a impossibilidade de editar um filme que não escrevi. Não importa se protagonista ou figurante, eu fui, sou, serei sempre o principal ator de um mundo meu. O estado vigilante patológico em que me colocaram, é cruel, desumano, agressivo. Quais as consequências de quem viveu e ainda vive assim? - Eu sei quais são. Há saudades? - Sim, certamente. Quando a minha idade cronológica ainda permitia-me ser, parecer o que sempre fui. Saudades de uma ladeirinha, onde meu percurso era tão pequeno e tão intenso de emoções: Felicidade e ansiedade na chegada. Tristeza e ansiedade na partida. Saudades de minha sala de aula, daquele mundo intenso de verdades. Saudade da Capela, da minha Capela, na qual por muitas vezes entrei pra falar pra Deus. Saudades. Mas, jamais irei esquecer do poder do abraço e, como eles podem ser tão diferentes. Não pensei que numa intensidade de amor e compaixão, eu viesse a receber o abraço mais fraterno de minha vida. Abraçaste minha alma, acalentaste meu espírito. O título desta postagem, já não faz sentido. A não ser que eu tenha coragem de conversar com Deus, pedindo-lhe: Senhor, eu não quero mais ser criança. Liberte-me. Posso até aproveitar e ousadamente perguntar: PAI, tudo tem sua hora, seu tempo?