sábado, 4 de abril de 2009

Conversão não é mudança de religião...

Reconhecer a própria culpa. não as falsas culpas, mas a real, a profunda culpa. Deixar que o Espírito Santo revele a raiz do pecado. E deste reconhecimento deve brotar uma nova postura diante de Deus, de si mesmo e dos irmãos. Chega de cobrar Deus. Chega de auto-piedade, chega de acusar o irmão. (Veja Mt 5,23s;lc 17,4).

Todavia a conversão é mais. Implica afastamento do pecado. Isto é posterior ao perdão. Pode-se dizer que é graça que provém do perdão divino. Graça a ser abraçada. Por isto a primeira obra do Espírito Santo no reconhecimento do pecado é nos fazer compreender a gratuidade e a imensidão do amor pessoal de Deus por nós. “Fomos criados por um gesto misericordioso”. Somos como que “embebidos” de misericórdia, constituídos como seres chamados à vida por um perdão que precedeu nosso erro e o nosso arrependimento. Se Deus não fosse misericordioso, não teríamos jamais existido; e se esta misericórdia existe desde o princípio do nosso viver, ela ainda agora é fonte de vida graça da qual temos continuamente necessidade, e que constantemente nos cerca. Cada dia que passa é um perdão sempre novo, pessoal, criativo. Mas também discreto e silencioso, tão discreto que a própria pessoa às vezes se arrisca a não reconhecê-lo.

Vivemos imersos na misericórdia divina, mas podemos não nos dar conta disso. Quando pelo menos um só de nós percebe isto, Deus faz uma festa no céu. Foi Jesus quem o revelou, comparando a alegria de Deus pelo pecador que retorna com a do Bom Pastor que encontra a ovelha perdida, e acrescentando que o próprio Pai sente muito mais alegria por um pecador que se descobre envolvido por essa misericórdia que por noventa e nove pretensos justos, que se iludem com sua justiça e crêem que só de vez em quando têm necessidade do perdão de Deus”. (Viver Reconciliados, Amedeu Cencini, Ed Paulinas,p.64). Deixar o pecado não é simplesmente mudar hábitos comportamentais, pois isto é conseqüência. Deixar o pecado é retornar para Deus, é retornar à casa paterna, reassumindo a própria filiação divina. Por isto é que o coração do penitente é um coração de criança: “Quem não receber o Reino dos Céus como uma criança não entrará nele” (Mc 10,15). As crianças e os que lhes assemelham , segundo a sociedade daquele tempo e lugar, acham-se numa situação de total dependência. Ela não é o símbolo da inocência, mas da disponibilidade e obediência sincera. Ao acolher o Reino de Deus com tais disposições, entra-se imediatamente nele. É com isto que chegamos ao centro da conversão anunciada por Jesus: Converter-se significa aprender de novo a dizer ABBA, encontrar o caminho de volta para a casa do Pai, que ali lhe espera de braços abertos. Em última instância, a conversão à qual Jesus nos chama, nada mais é do que abandonarmo-nos à ação da Graça de Deus.

O motivo da conversão é a gratuidade divina. Já João Batista interpelara à Penitência. Mas a conversão, pregada por Jesus vai além. Onde está a diferença? Dá-se uma resposta na conversão de Zaqueu (Veja Lc 19,1-10). A este homem era inconcebível que Jesus tenha pretendido hospedar-se na sua casa, e comer com ele, que era o mal-falado, o desprezado, o evitado. Jesus lhe restitui a honra perdida ficando com ele em sua casa e partindo com ele o pão. Fazendo-o participar da comunhão com Ele mesmo, abre-lhe as portas do reino da gratuidade, da doação de si. Implicitamente convida-o a ser dom, e Zaqueu acolhe o convite. Zaqueu entra no reino da doação de si mesmo. A bondade de Jesus vence Zaqueu. O que não conseguiram todas as censuras, e todo o desprezo de seus concidadãos, conseguiu-o a bondade de Jesus, diante da qual Zaqueu publicamente reconhece a sua culpa e se penitencia. O mesmo se dá com a Samaritana, a quem Jesus pediu água. depois de tudo ela corre a anunciar, o “homem que sabia tudo da sua vida”. Por outro lado, isto não aconteceu com Corazim e Batsaida. Nestas cidades se deram ações visíveis da misericórdia de Deus, mas seus habitantes continuaram a viver para si mesmos. É a liberdade do chamado divino a entrar no Reino: “se hoje ouvires a minha voz entrarei e cearei contigo”. Penitência não é ato de humildade humana, mas penitência é ser vencido pela graça de Deus.

A Graça de Deus sempre desinstala o homem, e o insere aonde ele deveria estar se não fosse o pecado: Em Cristo. Tomemos Isaías 53, o quarto canto do servo de Iahweh, no qual a tradição cristã sempre viu o mesmo destino histórico de Jesus. O servo não cometeu nenhum pecado, mas “levou nossos pecados em seu próprio corpo, e por suas feridas fomos curados” (Veja também Fl 2,6-11). Ele doou sua vida por amor a nós, e assim nos salvou. Veja agora is 53,5-11. “Ser salvo não quer dizer simplesmente que Cristo , ao morrer na Cruz, nos reabriu as portas do reino, mas que nos deu um novo ser: o Seu. E não em termos genéricos, mas particularmente nos comunicou aquele seu ser que salva carregando nos ombros o peso do outro. Portanto, salvando-nos, nos participou e compartilha conosco sua vontade de salvar e aquela mesma disponibilidade a nos tornar, nele, instrumentos de salvação do outro” (Viver reconciliados,p.136-7).

Não é indiferente que Cristo nos tenha remido morrendo na cruz, assumindo as nossas dores. Se nos salvou, também nos transmitiu um modo correspondente de viver a Salvação e de ser salvo, não só como modalidade comportamental ou exemplo a imitar, mas como uma disponibilidade nova a doar as nossas vidas. Por isto, aquele que acolhe a Salvação recebe a predisposição para agir em conformidade com aquele ato que o salvou. Morre o homem velho e nasce a criatura nova, disponível à doação de si. Isto é acolher a salvação, isto é verdadeira conversão, é realização de si mesmo. “O homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo” (GS,n.24)

Aquele que se fez pecado por nós e por cujas chagas todos nós fomos curados nos revela que o pecado é vencido pela graça de doar a si mesmo, em Cristo. O homem muitas vezes fracassa em seu processo de conversão porque pretende derrotar o seu pecado para sua salvação e para construir sua santidade isoladamente. Assim, em vez de derrotar o mal que há em si, o do egoísmo, realiza uma falsa conversão, legalista, farisaica, e acaba ficando só com seu pecado e com seus sonhos de santidade, a lutar contra o vazio. A Salvação nunca é subjetiva, particular. Ela implica sempre a atuação do mandamento do amor. Veja o que aconteceu com Zaqueu, veja o que aconteceu com Leví, veja o que aconteceu com a pecadora, e veja o que aconteceu com o jovem Rico, que foi embora sozinho, com sua pretensa santidade. Com efeito, o verdadeiro mal do qual o homem tem necessidade de ser libertado é o egoísmo: quando o vence é que entra realmente no Reino de Deus, e experimenta a alegria de ser salvo.

Neste contexto é que vemos a Samaritana dar-se conta de seu egoísmo, da sua falta de amor pêlos tantos “maridos” que teve. Jesus estava lhe oferecendo a água da vida, que desinstala, que tira o homem de si mesmo e o lança para amar. Aí ele detesta o pecado, e pretende deixá-lo para não mais ferir a Deus e ao próximo. Quando encontra gratuidade do amor de Deus que dá-se sem medidas, e acolhe este amor é impelido a dar-se sem medidas. Enquanto isto não acontece, o homem permanece numa falsa conversão, simplesmente legalista, a “limpar a casa e deixá-la vazia” até que venham outros tantos demônios provindos do desamor, a se instalar nela (Veja Mt 12,43-45 e Lc 11,24-26).

Embora dê orientações, a grande novidade no apelo de Jesus à conversão não é o ato, mas a sua motivação. O judaísmo antigo está dominado pela idéia do Mérito. A mola propulsora do agir é a esperança de recompensa. Jesus também fala de recompensa, mas na Lei Nova ela é preexistente. neste caso, é outro o motivo para agir: a gratidão pelo dom de Deus. Aquele que acha o tesouro é vencido pela grande alegria. Fica sendo a coisa mais óbvia do mundo que ele entregue tudo para apropriar-se deste tesouro (Mt 13,45s). Assim como a experiência da bondade sem fronteiras de Deus e sua paciência é fonte de que jorra o amor pêlos inimigos, , o perdão de Deus constrange a amar. Em Lc 7,36-50 temos um exemplo disto. Deus perdoa a pecadora não porque ela amou muito, mas ela amou muito porque Deus a perdoou gratuitamente. Deus a amou gratuitamente, e por isso a perdoou, e ela então amou Deus muito mais do que aquele que não teve a experiência da gratuidade do amor divino. Por isto, aquele que vive de comércio com Deus não pode conhecer o Seu incondicional e gratuito amor, e então não pode verdadeiramente amar, porque não viveu esta experiência. No reino de Deus só há um motivo para agir: a gratidão pelo perdão. Zaqueu também é vencido pela bondade de Jesus, e por isto responde, de todo coração com a restituição dos que defraudou e a doação ao pobres.

Jesus tem sede da nossa conversão. E ele disse isto à Samaritana. Jesus necessidade de hospedar-se na nossa casa. E ele disse isto a Zaqueu. Jesus tem sede de restituir-nos a imagem de Filhos do Pai que é todo doação de si. Jesus não tem sede das nossa ações vistosas. Jesus tem sede do nosso dar-se, sem limites porque se arriscamos ele nos dá a graça de fazê-lo. João Batista pregava o batismo do reconhecimento do pecado. Jesus também o fez, mas foi infinitamente mais além, porque suas palavras são de vida eterna. Ele trouxe para o tempo a linguagem da eternidade. Amar, dar-se inteiramente, sem limites. Ele deixou-se batizar e pagou os impostos para que se cumprisse a justiça da lei, mas ele foi infinitamente além da lei. E quer nos levar infinitamente para além da Lei. Ele tornou tranformou os pecadores públicos da Bíblia em doadores de si mesmo até as últimas consequências. Ele os inseriu em si mesmo e eles realizaram prodígios que ficaram não apenas no tempo mas varam a eternidade.

O estabelecimento do Reino de Deus, que Jesus veio inaugurar, se tornará visível em todo lugar onde os homens se sujeitem, por livre decisão, a obedecer a lei. Aí ele irá além da lei. Porque seu intuito não será a recompensa, mas será doar-se a si mesmo, e Deus mesmo é a sua recompensa. Quem entra atende ao chamado de Jesus e entra no Reino de Deus está sob uma nova justiça, que é parte integrante da vida nova que Jesus nos trouxe. Esta nova justiça não consiste na abolição da lei, mas em levá-la à perfeição. Para isto Jesus veio. Para fazer o homem compreender Deus e a Sua vontade, e entrar nela. O direito divino do Antigo Testamento fixou-se na Torá escrita e na Torá oral A Torá oral ou Halaká consistia na interpretação dos escribas, de onde provinham todas aquelas minúcias que conhecemos. A Jesus não interessa destruir a lei, mas interpretá-la em sua medida escatológica plena. É preciso compreender a lei com visão de eternidade, em vista do amor, que é o que há de eterno. Jesus rejeita a Halaká (Mc 2,27/Mc 3,4/ Mc 7,1-8/Mc 7,15/Mc 7,21) porque esta legislação muito contradiz o Mandamento do Amor (Mc 7,6-8). Somente num lugar Jesus parece tomar uma atitude positiva para com a Halaká, mas ainda assim não lhe dá uma aprovação global: “Os escribas e os fariseus estão sentados na cátedra de Moisés. Fazei, pois, tudo o que vos disserem, mas não vos reguleis por seus atos, pois eles dizem e não fazem”.

Constituiu uma ousadia de Hilel (cerca de 20 a.C. o fato de ele ter feito notar a um gentio que a regra de ouro era a súmula da Lei escrita: “Tudo o que te parece nocivo a ti, não o faças a outrem. Isto é toda a Torá”. A versão negativa de Hilel se contentava em não causar ao próximo nenhum prejuízo. Jesus se liga a Hilel, mas vai além. Sua versão é positiva e conclama a dar-se provas de amor por atos positivos: “amai ao próximo como a si mesmo” (Veja também Lc 6,27-38). A lei vital do Reino de Deus é o Mandamento do amor, expresso não só por sentimentos e palavras, mas por atos, na capacidade para o dom (Mt 5,42) e na disposição para o serviço (Mc 10,42-45). Mateus 25,31-46 enumera as seis mais importantes obras de amor: Dar de comer a quem tem fome, acolher o estrangeiro, vestir os nus, visitar os doentes, Ir aos prisioneiros.

Uma outra marca deste amor é seu caráter ilimitado. A parábola do bom samaritano descreve o caráter sem fronteiras do amor com especial destaque (Lc 10,30-37). A ajuda desinteressada que o mestiço demonstra para com o desamparado mostra isto, porque a moral da época excetuava a obrigação de amar o inimigo pessoal, ao passo que Jesus dá como motivo do amor aos inimigos: “a fim de serdes verdadeiramente filhos do vosso Pai, que faz nascer o sol sobre os justos e injustos” (Veja Lv 18,18 e Mt 5,43-48).

O mandamento do amor não dispensa a lei. O que Ele faz é corrigir sua imperfeição, porque sem o amor toda lei acaba servindo aos nossos interesses egoístas. Portanto não se trata de um desprezo da lei, mas do seu aperfeiçoamento. Nas seis antíteses o sermão da montanha (Mt 5,21-48) Jesus contrapõe o novo direito divino ao antigo. Seis setores da vida recebem nova orientação (Veja vv. 21-26/vv.27-30/vv.31s/vv.33-37/vv.38-42/vv.42-48).

O Reino de Deus irrompe para dentro de um mundo que ainda está sob o signo do pecado, da morte, de Satã. Por isto, a conversão ao reino é trabalho para uma vida toda. Jesus esclarece, no Sermão da Montanha, como se apresenta a vida nova, que deve ser aplicada a todos os aspectos da vida do discípulo, porque eles mesmos construirão o Reino de Deus com a transformação das suas vidas. Toda a sua vida deve testemunhar ao mundo que o Reino de Deus chegou até a humanidade é convidado a, livremente, escolher entrar nele. Em sua vida, enraizada e fundada nos valores do Reino, deve ficar visível a verdadeira felicidade. No reino de Deus, dá-se uma total inversão de valores: os pobres ficam ricos, os famintos saciados, os tristes consolados, porque Deus doa vida eterna, onde “eterna” significa “participação na vida de Deus”. Por isso, dizemos que As Bem-Aventuranças são a Lei fundamental do Reino de Deus ao qual Jesus nos convida a entrar. Vivendo-as, encontramos e oferecemos ao mundo razões para esperar. Elas não somente assinalam o caminho a percorrer, mas ajudam a chegar na meta. Elas nos situam diante do dom de Deus, nos movem e nos ajudam a fazer deste dom o fundamento e o centro de nossa vida humana.

“Seu ensinamento se dirige a homens que já foram libertados do poder de Satanás mediante a Boa-Nova; a homens que já vivem no Reino de Deus e irradiam seu fulgor. Dirige-se a homens que receberam o perdão, que encontraram a pérola preciosa, que são convidados às núpcias, a homens que pela fé em Jesus pertencem à nova criação, ao mundo novo de Deus. Dirige-se a homens que já experimentaram em suas vidas aquela grande alegria de que fala a parábola do tesouro no campo: o homem que encontrou vai, cheio de alegria, e sacrifica tudo o que possui. Dirige-se aos filhos pródigos que o Pai recebe novamente na casa paterna. Desde já - lhes diz Jesus - podeis viver na era da salvação. Mas o tempo da Salvação é também o tempo em que a vontade de Deus entra em vigor com toda a sua força. Pois presença do reino significa estabelecimento do direito querido por Deus para o mundo que vem. este direito divino é ao mesmo tempo vontade santa e perdão soberano. Ao nos perdoar, Deus nos convida a doar a nossa vida.

Mas quem consegue praticar tudo isso? Nós, homens tão miseráveis, sempre inconstantes, oscilando de um para o outro lado? Antes de cada palavra do Sermão da Montanha houve alguma coisa. O que precedeu foi a pregação do reino de Deus. O que precedeu foi o dom feito aos discípulos, do privilégio de ser filhos (Mt 5,14-16). O que precedeu foi o testemunho, em palavras e em obras, que Jesus deu sobre a sua pessoa: o exemplo de Jesus transparece em cada frase do Sermão da Montanha. Cristo Jesus é o verdadeiro protagonista das oito Bem-Aventuranças, não é apenas aquele que as ensinou ou anunciou, mas é sobretudo aquele que as realizou do modo mais perfeito durante e com toda a sua vida. As Bem-Aventuranças são a sua mensagem. ou melhor, ele é toda sua mensagem. Por isso, não há necessidade de estudá-lo muito, mas sim de contemplá-lo. Só ha um caminho para viver as Bem-Aventuranças: Abrir-se ao Espírito Santo e segui-lo.

Desde a pobreza do presépio até a sua morte na cruz, as oito Bem-Aventuranças são os oito capítulos de sua vida, sua autobiografia espiritual. Ao proclamá-las não faz senão descrever-se a si mesmo, Elas são o retrato mais perfeito de Jesus : pobre, manso, triste, faminto, misericordioso, puro de coração, construtor de paz e perseguido por causa da justiça. Isto é o que o Papa disse aos jovens de Lima em 2 de fevereiro de 1985: “As Bem-Aventuranças são como o retrato de Jesus Cristo, um resumo de sua vida, e por isso se apresentam também como um programa de vida para seus discípulos. São um programa de fé viva. Toda a vida terrena do cristão, fiel a Cristo, pode encerrar-se neste programa, na perspectiva do Reino de Deus”