segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Solidão Amiga (Rubem Alves)

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a
casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta,
ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você
deseja é não estar em solidão...
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que
surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho,
ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão
feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas.
De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha.
Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se
lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava
e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se
com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa...
Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era
um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A
noite estava perdida.
Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos
livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por
oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela
cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras.
Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras
e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua
alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro
comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos
da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe
disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente:
eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa,
“parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante.
Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard
iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há
mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho
a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha
solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão
se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade
bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não
importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que
fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a
vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser
o lugar onde você vai plantar o seu jardim.
Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta:
Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a
sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar
dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas
são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha
inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:
“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“
Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha
enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas
alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros
que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente,
pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão
aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que
as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo,
perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão
com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem
sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar.
Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que
elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer
comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um
artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer
que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas,
voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:
“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não
discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas
abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até
mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se
em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“
E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o
operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e
falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao
cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado
que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um
humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não
sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento!
Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem
sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de
operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia
no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante
solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário
adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“
Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o
seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são
geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo
pela primeira vez e se transformou em poeta.
E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:
“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os
traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e
sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos...
Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde
erraria a verdadeira Cecília...“
Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de
relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília
estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.
O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me
faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra
na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino
caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro,
que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem
falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre:
entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em
bicar. Nunca
fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei
nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A
solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com
meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo
que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha
solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As
caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E
aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por
exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...
A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações?
Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos
outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque
nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da
qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é
verdadeira.
Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem
minha solidão feliz.
(Correio Popular, 30/06/2002)