sexta-feira, 2 de maio de 2008

O que amo na Igreja (Por Rubem Alves)



Acho que o Papa deveria promulgar uma encíclica tornando obrigatório o uso do Latim nas coisas da Igreja. Assim eu me converteria. Os padres modernosos, que gostam de ensinar e conscientizar, dirão que o latim ninguém entende. Retruco: pois só assim eu me converteria. Seria preciso que eu não entendesse nada. Os carismáticos estão certos. Falam línguas estranhas, e nessa estranheza se encontram com o seu Deus. Um Deus que se compreende não pode ser grande coisa. Um mar que se compreende não passa de um aquário. A. Gottlieb disse que os seus símbolos favoritos eram aqueles que ele não entendeu. Digo amém. Por isso amo o latim: porque não o entendo. Como não entendo os riachos, os pássaros, o vento, as minhas netas, e os amo todos.

Minha educação foi protestante. Os protestantes tinham raiva dos católicos. E com razão. Latim era coisa de padre. Por isso protestante não estudava latim. Assim, não aprendi. Mas amo o latim por causa da música. Cristal puro. Beleza das esferas cósmicas. Se papas, bispos e padres só falassem latim eu me converteria à Igreja: precisamente por não entender a letra da música que eles cantam, e ouvir a melodia do brando encanto do seu canto.

Tenho uma teoria sobre o Pentecostes. Como é sabido, naquele dia os apóstolos falaram a língua que sabiam falar, e todo mundo ouviu como se fosse nas próprias línguas estranhas que eles, turistas estrangeiros, falavam. Para mim só existe uma possibilidade de explicação desse milagre. Eles não falaram. Eles cantaram. Ali se inventou o vocalise. Vocalise é uma canção sem palavras. A voz é usada como um instrumento. Pura voz, pura música, pura beleza, sem sentido, sem nada dizer. Por isso, por nada dizer, todo mundo entende. Quem não sabe sobre que estou falando que escute a Bachianas Brasileiras n. 5, para soprano e oito violoncelos. Ou a Pavana, de Gabriel Fauré, cantada pela Barbra Streisand. A beleza não precisa do sentido. Ela salva sem nada dizer. Sim, eu me converteria a uma religião onde as palavras fossem silenciadas para que a música pudesse ser ouvida.

Assim fico eu diante da Igreja, repetindo o poema do Ricardo Reis:

“Cessa o teu canto.
Cessa, porque enquanto o ouvi
ouvia uma outra voz
como que vindo nos interstícios
do brando encanto com que o teu canto vinha até nós...“

Não quero entender nada do que se diz. Na verdade, não quero que coisa alguma seja dita. “A Palavra“, diz a Adélia, “é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.“

Neste momento estou ouvindo canto gregoriano da Schola Ungarica. Agora entraram as vozes femininas dos meninos. Cantam em latim. Que estão dizendo? Sei lá. E nem quero saber. A beleza me basta. A beleza faz amor com o corpo. Por isso ele treme e chora. As palavras ficam na cabeça. Lembro-me do dito por Kierkegaard, um filósofo protestante que entendia dessas coisas: “A Verdade não está naquilo que é dito mas no como ele é dito.“ Deus não está na letra. Está na música.

Para amar a Igreja eu paro de pensar. É preciso fazer dormir a minha inteligência. Recito o verso o Alberto Caeiro: “Pensar é estar doente dos olhos“. Cessado o pensamento eu me transformo num ser só de sentidos, do jeito mesmo como nasci. Eu sou olho, ouvido, nariz, boca, pele. Vejo, ouço, sinto cheiros, sinto gostos, sinto toques. Amo a Igreja por suas artimanhas erotizantes, por aquilo que ela faz com os meus sentidos.

O canto gregoriano continua. Vai fazendo sua tarefa de sedução sensual. Penetra suavemente nos meus ouvidos como uma macia serpente de veludo, até atingir o centro da minha alma onde se localizam os meus pontos erógenos. Cada sentido tem pontos erógenos que lhes são peculiares. Me entrego à melodia. Estou derrotado. Esse canto gregoriano, talvez a maior produção da Igreja Católica no campo da música (como se sabe J. S. Bach era protestante) me faz esquecer tudo o que disseram teólogos, bispos e papas em todos os séculos de vida (e morte) da Igreja.

A sedução da música não pára aí. Amo os sinos. Para mim, um dos mais belos versos da língua portuguesa é o escrito pelo Álvaro de Campos: “Todo cais é uma saudade de pedra.“ Eu acrescento: “E todo sino é uma saudade de bronze.“ Os cais anunciam partidas e distâncias. Os sinos anunciam mundos que não existem mais. Não há nada mais contraditório que o repicar dos sinos nas cidades grandes. Às cidades pertence o barulho das buzinas, dos trios elétricos, dos alto-falantes. A música dos sinos é uma borboleta que entra na cela de uma prisão. Ela fala de mundos que só existem na saudade. A sua música nos vêm de lugares indefinidos num passado distante. Como eu acho que Deus mora é na saudade, o repicar dos sinos, que nada diz e nada significa, é um altar construído com sons. Fosse eu o Papa e ordenaria que os sinos fossem tocados três vezes por dia: às seis da manhã, ao meio dia e às seis da tarde. Os sinos fariam o corpo se lembrar de Deus mais que muitos sermões.

Onde estão eles, os sinos? Sei não. A Igreja se modernizou. Acho que ficou com vergonha de suas coisas antigas. Em São Paulo havia um seminário e no centro do pátio havia um sino que marcava o ritmo da vida. O sino desapareceu. No seu lugar, uma coisa moderna, uma cigarra estridente, parecida com voz clerical.

E a sedução dos olhos? As terríveis telas de Grünenwald, os Cristos crucificados mais horrendos que jamais vi, os pesadelos de Bosch, os transparentes Cristos de Salvador Dalí, as madonas de Rafael, a Pietà de Michelangelo. O protestantismo não produziu nada que pudesse se comparar a essas obras de arte, por medo da idolatria. O protestantismo sempre teve medo da beleza em sua objetividade plástica: é muito fácil que o encantamento do belo transforme o belo objeto em fetiche. Para não correr o risco da tentação os protestantes seguiram à risca o conselho evangélico: arrancaram os olhos.

Parei um pouco de escrever para folhear um maravilhoso livro que comprei - Le Vitrail (O vitral). Ali se encontra a arte do trabalho com os vidros, as cores, as transparências, a luz. Ah! Como é maravilhosa uma catedral gótica quando a luz do sol se filtra através do vitral. Isso não pode se transformar em ídolo. É como o arco-íris: não pode ser tocado.

Amo os vitrais. Foi uma maravilhosa poetisa, a Maria Antônia, professora em Mato Grosso, que me ensinou que a alma é um vitral.

“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto, de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços,
ficando buracos irreversíveis...“

E amo também os espaços vazios das catedrais góticas, por onde a alma voa. E os mosteiros e seus claustros, os jardins, as fontes, as ervas. Também amo o incenso, erotização perfumada do meu corpo.

Vocês devem ter entendido: amo, na Igreja, tudo aquilo que saiu das mãos dos artistas. Mas, quando ouço as explicações do teólogos e mestres, o encanto se quebra e eu desejo que eles tivessem falado em latim, para que eu não tivesse entendido. A letra acaba com a música. Por isso, só desejo repetir o dito pelo Ricardo Reis: “Cessa o teu canto...“ Deixa que a Beleza, sem palavras ou catecismos, evangelize o mundo. Deus é Beleza.